Pastilhas de nicotina para deixar de fumar: o que aprendi em 40 anos

Mãos a partir um cigarro eletrónico ao meio com uma chávena de chá ao lado. simbolizando a decisão de deixar de fumar.

Imagem ilustrativa criada com IA

Já deixei de fumar tantas vezes que o meu cérebro já sabe os truques todos. Cada tentativa nova é mais difícil. Não é falta de vergonha na cara, é mesmo o vício a jogar com o historial.

Os primeiros cigarros foram aos 9, a brincar. Comecei a sério aos 13, firme ali pelos 15.

Aos 44 olhei para a conta: “30 anos a fumar”. Pensei: se calhar convém ver se consigo viver o mesmo tempo sem fumar. Parei um mês antes dos anos.

Foram quatro anos e meio sem fumar. A frio. Zero nicotina. Só a tal “força de vontade”. Foi fácil largar, fácil manter. Difícil foi viver comigo: depressões pesadas, momentos em que só me apetecia morrer. Aguentei, mas não foi uma história bonita de um livro de autoajuda.

IQOS, vape e o circo armado

Depois veio o tabaco aquecido. Aquela ideia entrou e instalou-se: “é clean, e parece que não faz mal”. Comprei a máquina. Voltei a ser “fumadora” com selo moderno.

Às vezes, do nada, baixava-me a tensão, vinham calores, sentia-me esquisita. Até ao dia em que pensei: “isto está-me a fazer mal” e larguei. Larguei um tempo. Voltei. Sem prazer nenhum, só conflito.

Então decidi experimentar o vape. E aqui, assumo, fiz asneira da grossa. O vape é um cigarro sempre aceso. Sempre ali. Estás a cozinhar, a editar, a pensar – e vai uma passa. Quando dei por mim, andava com aquilo colado à mão o dia todo.

Fui pesquisar. Encontrei estudos a mostrar que o uso de vape causa efeitos imediatos na circulação: após uma utilização única, já se observa diminuição significativa do fluxo sanguíneo e da capacidade de dilatação da artéria femoral, com menor oxigenação, mesmo sem nicotina. Estes efeitos agudos, provocados pela irritação e contração dos vasos, podem contribuir para danos crónicos, tromboses e doenças vasculares periféricas.

Deixei o vape. Não deu para ir reduzindo o vape, teve que ser de repente. Qual foi o resultado? Dois dias de cama. Sintomas de abstinência a sério, tipo gripe de fumador. Não sei como é sair da cocaína ou heroína, mas aquilo chegou para eu perceber que o meu corpo não está para brincadeiras.

Fiquei sem fumar mais de um ano.

Luto, revolta e volta aos cigarros

Depois morreu alguém próximo de mim. Alguém que nunca fumou a sério — só aquelas passas comigo, miúdas, décadas antes. Morreu de cancro do pulmão.

O meu cérebro fez a matemática mais estúpida do mundo: “ela não fumava e morreu na mesma, eu ando a sofrer para não fumar, para quê?”. Revolta. E voltei a fumar. Há cerca de cinco meses.

Desde aí tem sido isto: eu a não querer fumar, a saber exatamente que estou a envenenar os pulmões, a culpar-me por isso e a dependência a comandar o show - e ir buscar o cigarro na mesma. Viver neste conflito desgasta uma pessoa.

Este inverno: a tosse que me pôs na linha

Este inverno tem sido duro. Já tive gripe duas vezes. A primeira gripe passou, a tosse aliviou mas nunca desapareceu totalmente. E agora, nesta segunda, voltou em força.

Parece castigo: tosse vinda do fundo dos infernos, diafragma em esforço máximo, picadas e ardor no tronco todo, músculos do peito a doer, costelas inflamadas. Cada ataque de tosse parecia que me ia rebentar por dentro.

Reduzi os cigarros. Achei que chegava. Não chegou. O corpo fez-me perceber que “reduzir” não era suficiente. Tive mesmo de parar.

No primeiro dia sem fumar, dormi sem a tosse horrível. Em três dias a tosse quase desapareceu. Antes, em novembro, tinha acontecido a mesma coisa: tossir, parar uns dias, melhorar e voltar logo a fumar. Desta vez vi claramente a diferença entre “fumar menos” e “não fumar”.

Porque desta vez não vou “à bruta” sem nicotina

Na minha teoria, o ideal era deixar tudo: tabaco e nicotina. Mas na prática, para mim, isso é receita para o desastre.

Eu já sei o que é estar anos sem nicotina e juntar isso a depressão, solidão e vontade de desaparecer. O meu cérebro aprendeu que não fumar é igual a sofrimento. Se eu agora tento mais uma vez sem nada a que me agarrar, ele entra em pânico. E com razão.

Além disso, o meu humor já oscila em dias normais. Tirar nicotina a zero, em cima de uma vida que já está complicada, podia ser muito perigoso.

Por isso desta vez estou a fazer diferente:

  • não estou a fumar;

  • estou a usar pastilhas de nicotina, 2 ou 3 por dia;

  • e não tenho vergonha de dizer que preciso deste suporte.

Não é para ficar presa à nicotina para sempre. É para não me passar enquanto o corpo e a cabeça se habituam a viver sem os cigarrinhos.

O que aprendi na pele

Se alguém com história parecida com a minha me perguntar “vale a pena tentar sem nicotina?”, eu respondo:

  • Se tens historial de depressão forte, cuidado com o herói interior.
    A conversa “força de vontade acima de tudo” vende bem, mas quem já esteve quase a cair num buraco depressivo sabe bem o preço a pagar. Às vezes, o “orgulho” de não usar ajuda é precisamente o que te faz cair.

  • Vape não é solução.
    Para mim foi pior: mais dependência, mais facilidade de usar, e os estudos a mostrar que mexe com os vasos sanguíneos logo à primeira. Se estás a pensar usar vape para deixar de fumar, não penses duas vezes, pensa três ou quatro.

  • Nicotina ajuda o corpo; o hábito é outra guerra.
    As pastilhas tiram um bocado a necessidade física, mas não resolvem o ritual: vou trabalhar → fico em stress → vou fumar. Isso tem de ser trabalhado com outras coisas: rotina, movimento, formas diferentes de enfrentar as tarefas.

  • Dose não precisa ser absurda.
    Não preciso de 12 pastilhas de 4 mg por dia para ter apoio. Com 2–3 de 2 mg tenho-me aguentado. A ideia é ajustar à necessidade real, não seguir uma bula pensada para quem fuma um maço e meio.

Onde estou agora

Agora mesmo, estou sem fumar há alguns dias, a tosse abrandou, o peito ainda se queixa, e eu mastigo 2 ou 3 pastilhas de nicotina por dia. Não é bonito, não é inspirador, não é “case study” de sucesso.

É só a vida real de uma fumadora que não quer ser fumadora, que já provou o caminho “a frio” e não quer voltar a pagar o mesmo preço psicológico.

Desta vez o objetivo não é ser heroína. É conseguir ficar sem fumar sem me destruir no processo.

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